Voz da Póvoa: O circo
é uma actividade sempre em viagem, é isso que o fascina?
Pedro Correia: Sempre gostei de viajar e com este
trabalho posso ir pelo mundo, fugindo à rotina. O lado marginal do palhaço
também me fascina, porque representa o outro lado da sociedade. Se não
fosse palhaço era terrorista, mas prefiro o terrorismo do humor que é bem
mais pacifista. No fundo acredito na possibilidade dum mundo sem guerras.
Eu sei que às vezes é complicado ser pacifista, existem coisas que são
extremamente revoltantes.
Voz
da Póvoa: Para
crianças ou adultos, o espectáculo pode ser abordado da mesma maneira?
Pedro Correia: Penso que podem ser
abordados os mesmos temas mas de uma forma distinta, já que os universos
são diferentes. Na representação exploro mais o lado físico e mímico do
palhaço. Inspiro-me em Charlin Chaplin, gosto da ideia do corpo sem a
utilização da palavra. Depois cada pessoa é um ser extraordinário. Mas as
experiências que tenho dos vários públicos são muito positivas. Nos
espectáculos procuro sempre uma certa originalidade.
Voz
da Póvoa: O
malabarismo tem riscos para o palhaço?
Pedro
Correia: Tenho um escadote que a todo o momento ameaça
desintegrar-se, mas o circo tem esse lado do risco, como a história do
fogo, é um risco com virtuosismo, isso faz com que as pessoas se agarrem
mais ao espectáculo. Mas não abordo o espectáculo só pelo lado do risco,
trabalho mais a poesia visual, onde o palhaço não tem como função só fazer
rir, as lágrimas também acontecem.
Voz
da Póvoa:É fácil
ser um profissional a tempo inteiro?
Pedro
Correia: Quando se fala de crise, os cortes vão sempre parar a
tudo o que está ligado à cultura. De uma maneira ou de outra vou
conseguindo sobreviver, fazendo aquilo que quero e gosto. Sinto também que
desde a Expo 98, onde se apostou muito nas artes de rua com o novo circo,
as pessoas tiveram oportunidade de assistir a grandes espectáculos vindos
de todo o mundo e desde essa altura existe uma outra sensibilidade. Já não
se vê o espectáculo de rua com aquela ideia do
mendigo.
Voz da Póvoa: Nos últimos dois meses esteve no México, como surgiu
o convite?
Pedro Correia: Nasceu de
uma proposta que apresentei ao Festival de Teatro Íntimo, onde existiu
também uma partilha de conhecimentos. Tento sempre conciliar as minhas
viagens trabalhando com crianças de rua, num aspecto mais solidário, que é
uma coisa que me dá gozo fazer.
Voz
da Póvoa: Para lá
do circo existem outros projectos?
Pedro
Correia: Tenho uma performance sobre Agostinho da Silva e estou
a trabalhar num espectáculo de música, vídeo e fotografia. Há um monte de
ideias que fervilham na minha cabeça. É muito importante não estar fechado
dentro do nosso mundo, mas é preciso digerir a informação que recebemos
para que a inspiração apareça.